sábado, setembro 24, 2005

amor em 3 actos



PRINCIPIO, ou ( Acto I )


A primeira vez de qualquer coisa, é sempre, ou quase sempre, o recôndito pensamento do abismo que nos projecta para o medo de uma qualquer virgindade que se teme perder. O rasto de incerteza que o nosso desconforto vai deixando, à medida que emparvecidos avançamos para a perdição, dá ao nosso corpo a forma moribunda da já consentida derrota. Sem uma aparente razão somos compelidos à escura e fria certeza da negativa. E tudo isto senti quando o meu olhar tocou o teu e tu respondeste com um sorriso...



MEIO, ou (Acto II )


Levo algum tempo a escolher a mesa, fico indeciso, a maioria dos lugares estão vazios, é cedo, muito cedo, ainda. O meu olhar percorre todo o espaço, rodopio uma, duas vezes, tento encontrar o melhor lugar, um lugar discreto, o mais distante dos olhares que em breve irão declinar-se sobre mim, ou apenas sobre a minha imaginação. É crucial encontrar o lugar certo. Não consigo decidir-me, seria muito mais fácil tomar uma decisão se o local estivesse repleto de gente, se não tivesse de escolher. Um mau estar apodera-se aos poucos de mim. Por fim sento-me, não convencido de ter feito a melhor escolha, mas fico-me, tento acomodar-me o melhor possível na minha inquietude, rodo um pouco a cadeira para que o mar me fixe o olhar, e a brisa me afague docemente o rosto. Fecho os olhos por longos minutos. Ouço o vento, a rebentação das ondas na areia, ouço as gaivotas e o bater do meu coração e ouço o meu silencio. Quando acordo deste momento que quase me pareceu eterno, há mais gente à minha volta, mais de metade da esplanada está agora ocupada. Já não ouço mar nem vento, nem gaivotas nem o meu coração. Agora, há apenas os risos, o arrastar de cadeiras, o rodopio dos empregados, as bandejas reluzentes ao sol artisticamente manejadas, entrando e saindo, trazendo, e levando, desejos efémeros. Olho um pouco de esguelha para o lado direito, uma senhora enorme entalada na cadeira dentro de um fato de banho colorido e um também enorme chapéu de palha, folheia uma revista, ao seu lado, colocado estrategicamente, um telemóvel, que de minuto a minuto é atentamente observado pela senhora gorda. Nesse compasso de espera em que interrompe a leitura, a expressão do seu rosto altera-se, torna-se serio, vazio, e logo de seguida volta à leitura, e a breves sorrisos. Fico irritado, antipatizo de imediato com aquela mulher, desvio o olhar, procuro o mar, as gaivotas, mas já nada é igual.
Não sei quanto tempo passou. Pela primeira vez, o tempo deixou de ser importante, deixou de ser uma razão. Sei apenas que os rostos os sorrisos à minha volta, vão-se revezando por outros rostos e outros sorrisos. Apenas a mulher gorda fica. A mulher gorda, e eu.
Na melancolia do azul daquele mar, dei por mim a rever numa espécie de flashes os acontecimentos mais marcantes dos últimos tempos, na minha vida. Tudo se enquadrava na linha do horizonte. Um traço, uma fronteira que separa o principio do fim, a morte da eternidade, a linha que separa o céu do inferno, a linha, onde balança a minha alma.
Senti o teu perfume, não me mexi, não precisava... Poisei o meu olhar no chão, ouvi o arrastar da cadeira à minha frente, e depois... O silêncio...
Não trocámos palavras. A medo, levei o meu olhar ao encontro do teu, brotavam da mesma melancolia do azul do mar, os nossos olhares. E na cobardia, ou simples imperfeição humana, julgámos nesses olhares, já tudo ter sido dito, e tudo, era, simplesmente o fim, o acabar de tantos sonhos. Julgámo-nos.
Os teus olhos humedeceram como um último grito silencioso, desviei o meu olhar para a mesa da mulher gorda, ela sorria, sorria de uma forma diferente, um sorriso de paz e completa felicidade. Levantou-se. Abriu os braços, o homem à sua frente abraçou-a, beijou-a demoradamente enquanto ela desfalecia de amor de encontro ao seu peito. Por fim, sentaram-se, deram as mãos e ficaram ali a contemplarem-se como quem adora a um ídolo.
Penso ter ouvido dizeres-me adeus, fiquei sereno, numa quietude quase mortal, senti todo o meu corpo dormente, como se eu fosse apenas pensamento, como se nada em mim fosse palpável, real... Voltei a sentir o afago do vento no meu rosto no momento em que as linhas do teu corpo se confundiam já, com a linha do horizonte. Em passos firmes, determinados, partias. Não pude ver se choravas, mas sabia que as tuas lagrimas juntavam-se a esse mar imenso, e perdiam-se na espuma que vinha beijar a areia. Por fim, perdi-te do alcance dos meus olhos, por fim, perdi-te, a ultima vez.
Voltei-me de novo para a mesa da mulher gorda, magoou-me, destroçou-me, tanta felicidade, todo aquele amor. Torturou-me aquele sorriso de quem acredita que o mundo é perfeito. Então lembrei-me, que tinha sido aquela mesa onde está sentada a mulher gorda, que primeiro merecera a minha atenção, tinha sido aquela mesa que eu no fundo do meu intimo mais desejara, aquela que tive a oportunidade de escolher e outra força maior do que eu recusou.
...E só então, chorei...



FIM, ou (Acto III )



Uma vez perguntaste-me o que era para mim o paraíso, e eu sorri,... lembras-te?...
Não te respondi, não levei muito a serio a pergunta e sorri...
Hoje lembrei-me de ti e da pergunta à qual nunca respondi.
Hoje, aqui, junto ao mar com o céu por companhia e a solidão como destino pensei no paraíso, e chorei...
Lagrimas maiores que o mar que me toca, maiores que o céu que me cobre, maiores que a solidão em que me sinto...
Hoje posso dizer-te que esse paraíso, se quisesse, poderia ser eu...

jorge@ntunes

3 comentários:

Lina disse...

Ai ai ai, eu acho que a culpa é do Setembro e da melancolia que ooutono deixa.
É um texto lindo, porém muio triste, não deixa tb de ser apelativo e sendo assim, quem sabe um dia, encontras esse tal paraíso. Acreditar é preciso!


p.s. Mandei-te um mail para me enviares uma música e não recebi nada.

Beijo

Lina disse...

Como possivelmente vou estar fora o resto do fim de semana, ousei fazer por conta própria as alterações.Espero que gostes.
Beijo

Filipa disse...

wow ...aqui estou , comecei do principio para o fim encantada com as tuas palavras .

Estes textos então , marcam-me muito.

De uma qualquer maneira sei que vivemos ( todos ) em um qualquer momento numa mesa em que nada se compartilha e o mundo e felicidade são meras imagens de outras vidas , como um slogan repetido numa televisao sem sintonia .

Por vezes sorrimos em tristeza e aguardamos em silêncio para que a pureza se mantenha , para que não sejamos mais um eco , uma voz perdida entre muitas outras .

Esperamos que um anjo nos abrace e nos leve de encontro ao inicio, ao paraíso , á felicidade da inocencia , que a alma se liberte e se reuna em paz com o Amor , amor criança ...

Que Deus te abençou ...

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