quarta-feira, dezembro 14, 2005

este nada...


Todo este nada que me circunda é apelativo do meu Eu. Por vezes, ao tentar conhecer-me esbarro na circunstância de não me merecer tal cuidado. E depois desvio os pensamentos para outras vontades e apenas por distracção volto a mim. Isto porque tudo o que me rodeia, este nada, é algo mais do que eu.
Pela janela entreaberta uns tímidos raios de luz que desconheço se chegam directos do sol ou reflectidos pela lua entornam-se sobre a mesa onde seguro entre as mãos a cabeça. Por vezes gosto de lhe tocar. Falo da cabeça claro. Gosto de a segurar entre as mãos. Não com medo de a perder ou a achar, mas pelo simples facto de me lembrar que ela ali está. E no entanto ela é para mim e em mim, um adorno físico escusado. Algo tão supérfluo quanto as asas numa avestruz.
Da parede ao lado chega-me o som de algo aparentemente lá. Lá porque mexe, respira, transpira e chora...
A fome, a dependência da existência acordou-o, o efeito em mim desse estado provocou o dispersar da inércia para um qualquer canto da sala. Levantei-me. E nesse novo posicionamento adquiri uma nova visão do espaço, como, se ali nunca estivesse estado antes. É curioso... voltei a sentar-me. Não havia duvidas este não é o mesmo lugar... deveras curioso...
Voltei aos papéis e ás letras, símbolos negros organizados caoticamente desprezando a pureza da folha que os carrega submetida ao peso de uma qualquer loucura que julga e se julga. E esses símbolos enroscados uns nos outros numa dança erótica e heróica germinam sonhos e paixões, pesadelos e ilusões.
Pedem continuidade as palavras escritas. Seguro entre os dedos a farpa que lhes dará vida.
As mãos... As mãos gémeas na descrença hesitantes na incoerência de quem as manda crispam-se desenganadas. Estão velhas as minhas mãos. Parecem cansadas e tristes. Estão magras e parecem pedir...
Em cima da caixa de cigarros poisa uma mosca completamente alheia à minha presença segura da sua grandeza ou falta dela. Seria tão fácil ordenar a uma das minhas mãos que acabasse com tal presunção mas detive-me ao olha-las. Pareciam realmente tristes e cansadas as minhas mãos...
Recusei momentaneamente outras ideias que me ocorreram e fixei o meu olhar na mosca,
Esse conceito a que chamam tempo decorreu sem alarido, sem um único movimento motor ou outro que fosse. O insecto lá se resolveu a partir. Uma das mãos buscou a caixa de cigarros a outra a caixa de fósforos.
Recostei-me na cadeira e sem mais delongas projectei na folha branca uma lufada de fumo de tons cinza. Ao dispersar-se a fumaça deixou na folha algo traduzido;


Um homem sentado
Ao lado da vida
A si encostado
Assim sem guarida

Um homem sentado
Fumando um cigarro
Assim sem guarida
Consumindo a vida

Um homem sem homem
Dentro de si
Um homem cuja alma
Dele chora, dele ri...



Cigarro acabado, poema findado e a inércia volta.
Julgo finalmente saber que os raios de luz derramados sobre a mesa provêem directamente do sol. Toco ao de leve a madeira quente num gesto doce e carente.
Algo aqui parece ter vida.

jorge@ntunes

9 comentários:

mar_praia disse...

Neste momento não sou capaz de te escrever nada, as lágrimas correm-me cara a baixo! Não sei porquê mas foi o que aconteceu a meio do teu texto... apenas me resta deixar-te um beijo.

Obrigada por te teres cruzado no meu caminho!

Silêncios disse...

ás vezes não te reconheço...e qd não te reconheço desanimo a pensar que afinal ando enganada qd penso que conheço alguém...
Está talvez na hora de despertar para algo mais que essa inércia em em que te deitas, para comtemplar a vida que passa...
Andará o teu riso a enganar-nos a todos...?
Quero uma resposta tua...urgente...

Paula Raposo disse...

Eu poderia dizer que estou completamente fascinada pela tua escrita...mas seria cair assim numa espécie de lugar comum, que não faz nada o meu género pois não??!! Beijos...

Filipa disse...

Gostei ... Esta muito belo , sofrido , sincero ...


beijinhos

Paula Raposo disse...

Não resisto...não sei se já tinha dito mas esta música é linda! É um prazer ouvi-la. Beijos, bom fim de semana cheio de coisas boas para ti.

MEDUSA disse...

Amigo novo este que me aconteceu assim nem sei muito bem como,mas que á medida que o tempo passa,o vou descobrindo de formas cada vez mais surpreendentes...hoje foi um dessas dias!!
um beijo

Neith disse...

Um texto profundo, sincero, repleto de sentimentos e emoções...digno de ser lido, apreciado e sentido. Um beijo enorme :)

Cristina disse...

Obrigada por teres feito parte do MEU MUNDO.
os meus votos sinceros de um Feliz Natal para ti e para
os que te são mais queridos.

Beijinhu gande
:)

Aromas Do Mar disse...

Lol, deletei o comentário anterior pq estava ainda dentro do teu template e saiu com os teus dados, desculpa.

A vida por vezes é tudo, a vida por vezes é nada, continuo a achar que se paga cara a factura desta breve passagem por este mundo, umas vezes fascinante, outras tão cruel.

Como se comenta um texto destes?raramente isto me acontece, mas desta vez não sei mesmo..., olha nem da música consigo falar, ela que me prendeu desde o primeiro acorde, esta leveza de sons, nesta mágoa sentida, oprimida, dizer-te o quê, falar-te de quê, sem me tornar banal?...

...deixo-te um beijo e quero que saibas que tem sido extremamente gratificante este cruzar contigo, estou por certo bem mais rica.Obrigada!

Lina/mar Revolto

P.S. Ahhh, manda as músicas que quiseres que eu ja tenho net da boa, ufffff :)

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